Tropa 2 – O buraco é mais embaixo…

Rafael Bender é rubronegro tradicional, ou seja, chato pra cacete. Mas toda a celeuma em torno das questões futebolísticas fica restrita ao  Blá Blá Gol, blog reconhecido pela ONU como o Oriente Médio dos blogs sobre futebol. No geral, é uma cara bacana, um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones

Por Rafael Bender

Tropa de Elite já tinha virado polêmica antes mesmo de começar com toda a pirataria que envolveu o lançamento do 1º filme. Para a segunda trama foi montado um grande esquema de segurança. Um filme que suscita séries de discussões já pode ser considerado bom. Mas Tropa 2 é ainda mais. Como o Tropa 1 prende a atenção desde o primeiro minuto.

A comparação entre os 2 longas torna-se inevitável. Enquanto o primeiro discorre sobre a hipocrisia de uma sociedade, traça o cotidiano corrupto do “sistema” (em especial a Polícia Militar) e mostra as operações e forma de agir do BOPE, o segundo tem uma história mais abrangente. Tropa de Elite 2 não se resume apenas ao BOPE e ao maconheiro que acha não ter nada demais queimar unzinho. José Padilha aproveitou com maestria o sucesso do 1º filme e lançou o 2º, novamente se utilizando de um problema do Rio de Janeiro mas, dessa vez, o expandiu como um problema do país.

[SPOILERS ON]

O filme mostra um Capitão Nascimento (agora Tenente-Coronel do BOPE) 10 anos mais maduro. Quando “cai pra cima”, como ele mesmo define no filme, torna-se subsecretário de Segurança Pública do Estado do Rio. Com o up-grade, reestrutura o BOPE, transformando-o “numa máquina de guerra”. Tema muito atual da realidade do Rio de Janeiro: com o combate ao crime organizado sendo eficaz, os policiais corruptos sacaram a chance de uma nova forma de organização (auto-ajuste do “sistema”) em detrimento ao tráfico de drogas, as milícias. Dessa forma, vai-se direto na fonte e elimina-se o intermediário (traficantes), o que sempre aumenta o lucro.

Ali, Nascimento percebe (ou demora a perceber) que o buraco é mais embaixo. A rede é maior do que se imagina. O “sistema” é todo interligado. Desde os peixes grandes aos nanicos. Padilha escancara toda a hipocrisia e cara-de-pau dos políticos brasileiros como a participação do governador em festividades nas favelas com milicianos armados e com sensacionalistas apresentadores de TV de duas caras (políticos). Assistindo ao filme pensava comigo: “corajoso esse cara é”.

O filme ainda traz uma figura manjada na nossa vida real, porém essencial para as discussões no filme: um pseudo-intelectual de esquerda. Capitão Nascimento trava uma batalha pessoal no campo ideológico com o cara dos “Direitos Humanos” que quase chega às vias de fato (assistindo ao filme entende-se o por quê). Posteriormente, percebem que estão do mesmo lado, mas com visões diferentes.

As politicagens, artimanhas, os detalhes, os mecanismos, os interesses diversos, tudo é abordado na trama. Muito interessante é o foco do filme, principalmente nessa época de campanhas eleitorais e seus “financiamentos”. A maconha e o pó, objetos de consumo do Tropa 1, dão lugar ao voto. É a corrida, a busca pelo poder. O “sistema” é todo voltado visando à perpetuação dos corruptos.

Capitão Nascimento parte para o combate, mas percebe que a guerra que trava contra o “sistema” é inútil, através de sua relação (até certo ponto complicada) com seu filho adolescente. A cena final do filme deixa claro quando o protagonista solta o verbo na Assembléia Legislativa dizendo que não tinha como responder à pergunta feita pelo filho quando ainda era criança. Se a louça está acumulada, imunda e cheia de resto de comida, não adianta matar a barata, pois aparece outra. É preciso fazer a limpeza da pia. Dá muito mais trabalho, mas é o que resolve.

Como tudo é jogado na cara, você passa a refletir sobre alguns problemas do seu próprio cotidiano que, na teoria, seriam simples de serem resolvidos. Dois exemplos que me veem é o acúmulo da função de trocador nos ônibus pelo motorista e a merda do comprovante de pagamento que apaga 1 mês depois. Era para ser simples. Determinava uma lei impedindo tais abusos e ponto. Mas a força política dos donos de empresas de ônibus e dos bancos provavelmente é grande. Está tudo no “sistema”.

Depois, para não deixar dúvidas, Padilha ainda dá um take onde é mostrada Brasília. Pra mim, faltou a legenda: “QG Central”, mas ficou subentendido.

Claro que já rolam boatos de um 3º filme. Padilha afirmou que não tem a intenção de um Tropa 3. Eu concordo com ele, não é necessário. O recado está dado.

****

Quanto ao aspecto técnico do filme não posso opinar muito. Sou um mero apreciador de bons filmes, bons efeitos e bons atores. Sei que além da mega qualidade da produção, me surpreendeu em Tropa de Elite 2 as atuações de quase todos os atores (inclusive com um toque de humor).

Arriscando-me um pouco.

Tive a impressão que as cenas do Tropa 2 foram mais curtas que do 1. Era muito assunto para um filme só.

Mais detalhes sobre cenas, o que você achou disso, daquilo… nos comentários. Até porque já explanei demais e tem maluco que ainda não assistiu.

O Rock n’ Roll morreu

Eu queria saber quem foi o mau caráter que inventou a área vip.

Área importante pra mim é um banheiro limpo. Quero ver se com isso sim vão se preocupar.
“Área importante” pra mim é um banheiro limpo. Quero ver se com isso sim vão se preocupar.

O show do Faith No More (banda cultuadíssima no Brasil, que retorna ao país depois de retomar as atividades interrompidas há mais de dez anos e dona de um fiel e gigantesco séquito de fãs) na merda do Citibank Hall vai ter “área vip”. No Maquinária FESTIVAL também. O FESTIVAL Planeta Terra também vai ter a sua.

ÁREA VIP EM CASA DE SHOW?!? A p$%#@ da casa de show já não tem camarote, sacada, essas m#$%@ justamente para aqueles que querem pagar mais pra não ficar no aglomerado? VSF!

Área VIP (de very important people) em show de rock é a coisa mais mau-caráter já inventada pelo empresariado oportunista. Contraria em todos os sentidos o espírito de concepção da música e das apresentações. Festivais então nem se fala. Nada mais é do que uma putaria sem tamanho. É mais uma forma que os organizadores encontraram de tomar mais dinheiro dos fãs, ávidos por curtir seus ídolos mais de perto em oportunidades esparsas como essa. Infelizmente (e é por isso que essas práticas picaretas proliferam) vai ter muita gente pagando o preço de querer ficar mais perto. Até eu enquanto fã desesperado cheguei a cogitar a ideia, porque me sinto encurralado frente à opção de não poder assistir o show direito ou mais longe do palco.

Que saudade da época em que se respeitava o público.

Estou enojado desse papo. É a pá de cal que faltava para o enterro do rock n’ roll. Tudo agora é área vip. Nego só pensa na p%#$@ do dinheiro. Já era aquela história de confraternização, de curtir um bom show de rock no meio da galera, mais um na multidão. Agora os vip’s (termo de merda) ficam lá na frente separando as bandas do resto.

Também me pergunto o quanto de influência os artistas poderiam ter para evitar práticas ofensivas como essa. Se eu tenho uma banda foda e tenho milhões de fãs, de que me adiantaria fazer um show longe deles, com meia dúzia de endinheirados, artistas e personalidades na frente atrapalhando a minha interação com meu público?

Quanto aos festivais e à completa distorção de seu entendimento pelos seus organizadore$$, eu pergunto: Woodstock teve área vip? O Rock in Rio teve área vip (na frente de todo mundo)? Wembley tem área vip? A Brixton Academy tem área vip? O Download tem área vip? O Rock en Seine tem área vip? Isso é coisa de republiqueta terceiro mundista.

Nem sei mais se vou nessa merda. Pra ficar atrás de área vip, já vou no Maquinária (outro festivalzinho filho da puta, que ainda tem a cara-de-pau de declarar que traz “a grandiosidade dos festivais europeus de música ao vivo em locais abertos”) ficar jogando areia em global.

Como já gritava Lenny Kravitz (mais um show que sofreu com essa merda) pra quem quisesse ouvir, rock n’ roll is dead!

Rock n’ roll is dead – Music & Lyrics: Lenny Kravitz
You think you’re on top of the world
But you know it’s really over
Runnin’ round with diamond rings
And coke spoons that are overflowin’
Rock and Roll is dead
But all the money in the world
Can’t buy you from the place you’re going to
Rock and Roll is dead
Rock and Roll is dead
Rock and Roll is dead
You can’re even sing or play an instrument
So you just scream instead
You’re living for an image
So you’ve got five hundred women in your bed
Rock and Roll is dead
But it’s real hard to be yourself
When you’re living with those demons in your head
Rock and Roll is dead
Rock and Roll is dead
Rock and Roll is dead…

O Mundo é de todas as criaturas do Mundo!

Extraído do Jornal O Globo:

Ibama multa dono que bateu em poodle na rua

Publicada em 06/06/2008 às 22h07m

BRASÍLIA – Patrick De Meauntroux, de 18 anos, foi multado em R$ 2 mil pelo Ibama e vai responder a processo por ter agredido com tapas e pontapés Bob, seu cachorro poodle, de cor preta. A agressão ocorreu no fim da tarde de quinta-feira, em Brasília. O jovem escapou de apanhar de populares depois de bater no cão. Patrick acabou fugindo, e sua namorada levou o animal a uma clínica veterinária, com uma das patas quebradas e problemas na bacia. Bob passou por cirurgia para colocar uma placa de metal na tíbia.

Patrick reapareceu nesta sexta e foi autuado pelo coordenador de Fiscalização de Fauna do Ibama, Antônio Paiva Ganme. O órgão ainda representará contra ele no Ministério Público Federal, e o jovem pode responder a processo com base na Lei de Crimes Ambientais. Patrick chegou a negar a agressão e disse que pisou sem querer no animal. Depois, admitiu aos fiscais do Ibama que perdeu a cabeça e não entendia a razão de ter agido com tanta violência.

Lendo essa matéria, me recorreu um pensamento de Mahatma Gandhi que diz mais ou menos isso:

“A GRANDEZA DE UMA NAÇÃO PODE SER JULGADA PELO MODO QUE SEUS ANIMAIS SÃO TRATADOS”

Até nisso o Brasil é um país de contrastes.

Se por um lado observamos diariamente casos de barbaridades e covardias promovidas contra animais de várias espécies, de outro enxergamos um número cada vez maior de pessoas que gastam uma bela soma no mês para cuidar de seus animais de estimação.

O fato é que muita gente se mete a arrumar um cão ou um gato ou qualquer outro mascote mas raramente se dá conta de que está assumindo um compromisso com e para uma vida toda, pois o mascote é um ser vivo que vai passar pelo menos uns bons quinze anos ao seu lado e é totalmente dependente do seu cuidado. “Cachorro é o filho que não cresce nunca”. O triste é que muita gente só se dá conta disso depois que passa a fase do filhote bonitinho, quando a sujeira fica maior, o gasto fica maior e o trabalho fica maior.

Em diversas regiões, infelizmente, o reflexo disso é o grande número de abandonos registrado principalmente nas épocas de férias, apesar das crescentes campanhas de conscientização e combate à tão covarde prática.

Nos Estados Unidos, se uma pessoa quer ter um animal de estimação, precisa registrá-lo e pagar uma licença para isso. E se por acaso o animal foge ou é abandonado, o dono é acionado e responde - podendo inclusive ser devidamente penalizado. Se antes eram usadas as plaquinhas de identificação (as famosas dog-tags – e essa é a origem do nome daquelas plaquinhas que os soldados utilizam), hoje - com toda a evolução da tecnologia – existem recursos como microships implantados sob a pele dos animais e localização por GPS. E o cerco aos responsáveis se fecha. O problema é a tal da carrocinha, que recolhe animais perambulantes que se não forem resgatados num prazo x, acabam virando sabão.

O Brasil precisa é adaptar sua legislação no que se refere à posse de animais domésticos. Primeiro para dar responsabilidade ao sujeito que quer ter um animal de estimação porém acha que é um bem descartável. Segundo porque essa talvez fosse a melhor maneira de resolver o problema do cada vez maior número de animais de rua nas cidades de todo o país, coisa que hoje é feita de maneira heróica por voluntários que recolhem, tratam, castram e TENTAM arranjar um dono. Só que para cada animal que é recolhido e tratado, outros cinco (em estimativa otimista) aparecem na rua, e o ciclo não acaba nunca.

Nos EUA (recorro ao exemplo estadunidense pois pra mim é um modelo eficiente), se uma pessoa se dispõe a ter um animal de estimação, ela precisa provar que pode cuidar e pagar para isso. No Brasil, cada mendigo de rua tem pelo menos dois companheiros, e normalmente um casal. Aí… E também acontece isso em casas bacanas, em barracos, em apartamentos… “Ah, deixa cruzar só uma vezinha…” Quem nunca ouviu ou se pegou falando uma sandice dessas?

O que entristece é ver o total desrespeito à vida, em todas as suas formas, pela sociedade atual. O homem cada vez mais agride o meio ambiente e insiste (apesar de toda a evolução da espécie) em tratar as outras criaturas que co-habitam este mundo de Deus como seres inferiores.

É fato que não existe criatura mais ou menos inteligente. Isso já foi amplamente discutido cientificamente, espiritualmente, filosoficamente, racionalmente e passionalmente. O que existe são diferentes inteligências entre todas as criaturas, inclusive o homem. E talvez o que atrapalhe tanto a verdadeira evolução do homem seja justamente a auto-proclamada superioridade (sic), que desde que nos entendemos por gente, lá no colégio primário, somos convencidos de ser donos. Depois de crescido, passei a acreditar que não passamos de mais uma espécie nesse mundo, que deveria justamente por sua inteligência aperfeiçoada saber respeitar os demais e promover uma existência harmônica e pacífica entre tudo e todos.

Analisando friamente, o homem se encaixa muito mais no conceito de praga, e por isso gostei tanto de um filme recente chamado Fim dos Tempos.

*****

Palmas para o Ibama. O precedente aberto pelo órgão é um divisor de águas na questão da responsabilidade do brasileiro no trato com os animais. E que seja extrapolada para outras questões tão graves, como o tráfico de animais silvestres e a farra do boi em SC. São lutas espinhosas e árduas, mas é pra frente que se anda. E por mais que se diga o contrário, a reestruturação e renovação dos quadros do funcionalismo público pela qual os diferentes órgãos do governo vêm passando tem trazido também gás renovado para a eficiência dos mesmos.

*****

Outra reportagem que li há um certo tempo dava conta de que a corte marcial do exército americano prendera dois soldados que realizaram uma suposta filmagem no Iraque onde maltratavam animais de rua. A corte estava analisando para verificar a autenticidade e anunciava pesadas punições aos oficiais caso fossem comprovadas as denúncias.

Gosto de pensar que estes são sinais de que o mundo está mudando. A opinião pública pelo menos se faz manifestar hoje em dia, numa realidade em que os canais de comunicação estão cada vez mais rápidos, acessíveis e chegam a cada vez mais pessoas. E cada vez mais pessoas manifestam sua indignação frente a episódios de barbárie desta natureza.

Só que, como tudo, consciência sem ação não vale de nada. Então pense muito bem antes de arranjar um animal de estimação. E quando decidir que realmente vai arranjar, pense mais um pouco. Lembre que você vai assumir um compromisso para uma vida inteira, e que abandonar uma criatura que vai ter você como uma figura divina é uma covardia e uma falha de caráter repugnante.

O Mundo não é só seu. Nem meu. O Mundo é de todas as criaturas do Mundo!

Merci beaucoup, Gugá!

*Originalmente publicado por mim mesmo no Blá Blá Gol

Agência/Reuters

Esse final de semana foi marcado pela despedida oficial do maior tenista brasileiro de todos os tempos, o manezinho que levou o Brasil ao primeiro lugar do ranking mundial da Associação de Tênis Profissional – um lugar até então desconhecido e utópico no imaginário coletivo tupiniquim: Gustavo Kuerten, um brasileiro de Santa Catarina, o carinhosamente conhecido Guga.

Guga ergueu três vezes a taça em Roland Garros, um dos torneios mais tradicionais do tênis mundial. Não obstante, tornou-se reconhecido no meio como um dos maiores especialistas das quadras de saibro. Ganhou seu dinheiro honesto, juntou suas conquistas e nunca deixou de ser um cara família. Jamais perdeu a humildade. E nem mesmo a paciência, na época que era crucificado pela sua queda de rendimento justificada por uma lesão que o perseguiria para o resto da carreira.

Guga fez o tênis acontecer no Brasil. E ainda assim, encontrava resistências dentro da confederação brasileira do esporte (vai entender brasileiro…). As escolas de tênis viram acontecer um boom de alunos da noite para o dia, alavancado pela performance do brasileiro nas quadras do mundo inteiro, e todos dando suas raquetadas ao som do “ãhmm” que se tornou a marca pessoal do ídolo.

O que não dá pra entender é como todas as homenagens que Guga está recebendo – as mais apaixonadas, fervorosas e sinceras – são na França. Roland Garros e seu público amam de coração o catarinense, e a despedida do tenista não poderia ser mais emocionada da sua parte e da parte de seu fiel público, uma verdadeira legião de admiradores.

Ser brasileiro é foda. O mundo inteiro gosta da gente pelo perfil, pela simplicidade, pelo carisma.

Mas aqui dentro mesmo estamos anos-luz de servir de exemplo quando o assunto é o reconhecimento. Nesse ponto, é foda ser brasileiro…

Guga, obrigado por tudo. Ainda que eu mesmo não seja um notório apreciador do tênis, sei sim reconhecer um grande exemplo de brasileiro quando este leva o nome do Brasil com dignidade onde quer que vá.

Valeu, manezinho!

*****

Belíssima homenagem na França.
Um troféu magnífico, que muitos que chegarão às finais gostariam de estar ganhando como o herói que caiu ainda na primeira rodada.
Essa é, orgulhosamente, uma das fotos que ficam eternizadas na história do esporte brasileiro.

Adeus, Beto Carrero

À 0:05h de hoje, o Brasil perdeu um de seus mais ilustres cidadãos.

Vítima de um quadro de insuficiência cardíaca, Beto Carrero faleceu aos 70 anos de idade.

Quando soube, tratei a notícia como mais uma daquelas piadas de morte que brasileiro adora. Mas quando constatei a veracidade, lamentei principalmente a perda de uma pessoa que realmente fará falta.

Nunca conheci pessoalmente, mas sem dúvida Beto Carrero é uma das referências construtivas da minha infância, bem como de muitos brasileiros de todas as idades.

Beto Carrero, e seu alter-ego João Batista Sérgio Murad, deixam o legado de um parque temático muito bem estruturado que resistiu a crises econômicas e modismos, além da imagem de uma pessoa de bem, preocupada em perpetuar os valores da preservação ambiental, do amor e respeito aos animais, do respeito aos idosos e da generosidade, calcada desde seus programas educativos até o simples gesto de estender a mão ao Dedé Santana quando todo o meio artístico lhe deu as costas.

O Brasil perde, talvez, mais até do que imagina. Perdeu um de seus cidadãos mais exemplares.

beto-carrero.jpgQue os responsáveis por seu legado saibam honrar e perpetuar a sua memória.

Obrigado, cowboy.

 

 

Johnny Depp é um bom camarada…

johnny-depp.jpgSe existe um cara off-mainstream no mainstream, esse cara atende pelo nome de Johnny Depp. O sujeito é reconhecidamente um ator de talento, mora na Europa, parece estar sempre de bem com a vida, faz questão de levar uma vida low-profile e é o responsável maior pela criação de um dos maiores ícones da cultura pop desde a virada do século: o CAPITÃO Jack Sparrow.

Já vi filmaços com ele, do tipo Gilbert Grape, Do Inferno, Edward Mãos de Tesoura, Chocolate, Ed Wood, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça etc, etc, etc…, mas recentemente li uma notícia de um feito do ator que deveria figurar no topo de sua brilhante carreira. E mesmo assim, quase ninguém ficou sabendo.

Da série Pequenos Gestos, Grandes Seres Humanos:

O ator Johnny Depp visitou secretamente o hospital Great Ormond Street, em Londres, na segunda-feira, para doar US$ 2 milhões de seu próprio bolso como forma de agradecimento à equipe que salvou a vida de sua filha. As informações são do jornal “The Daily Mail”.
Depp chegou de surpresa no hospital infantil de Londres onde a pequena Lily-Rose, de 8 anos, foi tratada no ano passado, quando teve uma infecção nos rins que quase a matou.
Na semana passada, o ator convidou cinco médicos e enfermeiros do Great Ormond Street para a première londrina de seu novo filme, “Sweeney Todd: O barbeiro demoníaco da Rua Fleet”.
E no dia 29 de novembro, sem levar a público, Depp passou quatro horas no hospital contando histórias para dormir aos pacientes vestido como o Capitão Jack Sparrow, depois de mandar buscar em Los Angeles seu figurino do filme “Piratas do Caribe”.
Em março do ano passado, Lily-Rose passou nove dias internada no hospital Great Ormond Street depois de uma infecção que levou a uma falência dos rins.
Ela foi contaminada por uma bactéria enquanto vivia com Depp, 43 anos, e sua mãe Vanessa Paradis, 34 anos, em uma mansão alugada em Richmond, na Inglaterra, enquanto ele filmava “Sweeney Todd”.
Depp teve que suspender as filmagens quando as condições da menina pioraram, a ponto de temer pela vida de Lily.

- Foi a coisa mais assustadora por que já passei. Foi um inferno. Mas foi mágico como ela superou isso lindamente. O Great Ormond Street foi fantástico, é um grande hospital – declarou Depp, pouco depois da recuperação da filha.
A Disney, que produziu os filmes da série “Piratas do Caribe”, também vai doar nesta terça-feira US$ 20 milhões para o Great Ormond Street, que precisa levantar cerca de US$ 340 milhões em cinco anos para reformar dois terços do hospital.
A doença de Lily-Rose quase fez com que “Sweeney Todd” fosse engavetado. O filme ganhou dois Globos de Ouro na premiação do último domingo, rendendo a Depp o prêmio de melhor ator de comédia ou musical e conquistando o título de melhor filme na categoria. (Agência O Globo)

Antes que algum mal-humorado de plantão questione, eu mesmo falo: é o mínimo que o cara poderia fazer por uma instituição que salvou a vida da sua filha de uma situação tão crítica. Ao prezado mal-humorado (meu outro leitor é bem-humorado), eu questiono: quantas pessoas fazem esse mínimo? E coloque na equação a variante “celebridades” (ô termo enojante), repita o cálculo e veja o resultado.

Eu enquanto brasileiro, mal-humorado, cinéfilo, botafoguense e ser humano, não achei pouca coisa.

jack-sparrow.JPG

Valeu, Jack!

Pro S.I.F não se f…

O Serviço de Inspeção Federal brasileiro é o Judas da vez.

E como era de se esperar, a imprensa já disparou sua cobertura carnavalesca e deu início à histeria coletiva.

leite.jpgSemana passada, a Polícia Federal desbaratou um esquema de adulteração de leite (com uso de conservantes – soda cáustica e água oxigenada) por parte de cooperativas no estado de Minas Gerais. Ontem (30/11), os jornais já veiculavam a descoberta de uma nova falcatrua: a alteração da data de validade do queijo tipo muzzarela, também no estado de MG.

Hoje de manhã, vi num canal televisivo a coluna de um jornalista pelo qual tenho certo respeito, indagado sobre como comprovar a qualidade do leite brasileiro (sic).

Ora, vamos por partes. Primeiro de tudo: desde quando a um jornalista cabe a emissão de um parecer técnico quanto à qualidade de um produto de origem animal que regularmente é alvo (assim como todos os produtos de origem animal que carregam o selo do S.I.F.) de constantes análises oficiais em laboratórios credenciados? Se o espectador, do alto da sua ignorância, deseja uma opinião técnica e fidedigna (e não um palpite, por maior que seja a boa vontade do jornalista – o que talvez não seja o caso, já que o negócio da imprensa é criar polêmica) então que ele procure um técnico habilitado e especializado no assunto. Em todos os estados brasileiros existem as Superintendências Federais de Agricultura, representantes estaduais do MAPA, onde irão encontrar muitos profissionais capacitados a sanar qualquer dúvida de maneira racional e embasada, e não mais um pra colocar lenha na fogueira.

Segundo de tudo: pra quem não sabe (e isso a imprensa NUNCA diz), o Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal brasileiro é tido como O MELHOR SISTEMA DE INSPEÇÃO DO MUNDO, com uma das legislações mais completas, rigorosas e eficientes - o RIISPOA (Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal), datado de 1952 e (pasmem!) utilizado eficientemente até hoje, claro que passando por constantes atualizações e adequações às crescentes tecnologias e exigências internacionais.

E agora vêm diversas empresas declararem (como eu assisti em entrevistas na TV) que desejam que o sistema de fiscalização do governo seja intensificado, que as empresas precisam de maiores garantias sobre a qualidade do que é produzido, QUE SEJAM MAIS FISCALIZADAS e etc e tal.

O que me deixa mais puto é a CARA DE PAU que alguns empresários têm de soltar uma declaração dessas. Claramente, essa é uma tentativa TORPE de queimar toda a estrutura do Serviço de Inspeção Federal brasileiro junto à opinião pública. Se a gente fizer uma forcinha, só uma forcinha de raciocínio, vamos pensar no seguinte: quem é o maior interessado em adulteração de produtos? Quem é que busca várias maneiras (lícitas e eventualmente ilícitas) de aumentar os rendimentos e conseqüentemente os lucros do que produz? É o fiscal? É o agente de inspeção? Para aqueles que não quiseram fazer a forcinha: NÃO! É O PRÓPRIO EMPRESÁRIO MAL INTENCIONADO QUE VAI APROVEITAR O MOMENTO PRA LIVRAR A CARA E QUEIMAR O GOVERNO E O SERVIÇO DE FISCALIZAÇÃO! ÓBVIO!

Quem tem que garantir a qualidade do que está sendo produzido é A EMPRESA, e ao S.I.F cabe fiscalizar, permanente ou esporadicamente, aquilo que é produzido. Não vamos permitir que haja essa inversão de valores. A EMPRESA É A GRANDE RESPONSÁVEL POR AQUILO QUE PRODUZ.

Não estou aqui pra livrar a cara do fiscal envolvido no caso, caso seja comprovada sua conivência ou sua participação no esquema. Muito menos estou aqui pra dizer que todas as empresas e seus proprietários não prestam. Tem muita gente boa, consciente e preocupada com a qualidade daquilo no que estão colocando o nome estampado.

Existem excelentes empresas e maus profissionais de fiscalização. Assim como excelentes profissionais de fiscalização e empresas criminosas. São os dois lados da moeda, que dizem respeito ao caráter do ser humano (o que já foi brevemente discutido em outro tópico), e que infelizmente podem fazer a diferença na balança para o bem ou para o mal.

O que eu gostaria de chamar a atenção dos meus quatro leitores é o cuidado que devemos ter quando nos depararmos com uma notícia sensacionalista veiculada sem o menor cuidado a fim de vender jornal. Isso inclusive é jogar contra o patrimônio: os mercados internacionais estão cada vez mais exigentes, e o Brasil desponta hoje como um dos maiores (senão O maior) produtor de alimentos do mundo – o que sinceramente desperta um feroz e perigoso jogo de mercados no cenário internacional. Uma notícia dessas, tratada da forma leviana como tem sido feito, colocando em xeque a eficiência da fiscalização e a qualidade higiênico-sanitária dos produtos brasileiros, literalmente é dar munição pro inimigo. E daí tome de barreiras alfandegárias, tome de queda de preços, tome de queda de vendas, tome de encalhe de produção, tome de desemprego, tome de pobreza, tome de violência, tome de tudo quanto é lado…

É preciso que a população se tranqüilize quanto a qualidade do que está consumindo, ainda que o faça de forma consciente, procurando conhecer as empresas das quais consome ou procurando as SFA’s estaduais para tirar as suas dúvidas. E é preciso que a imprensa cesse esse tipo de exploração do medo e da histeria pra vender jornal, mas isso seria querer demais. Mas se não muda a imprensa, que mude a consciência e a maturidade de quem lê (se é que também não é querer demais).

O Serviço de Inspeção Federal do Brasil é sim o melhor do mundo. Isso ninguém fala, mas essa é uma briga que o governo brasileiro tem que comprar, e não deixar pedra sobre pedra quanto à qualquer dúvida sobre sua seriedade.

No entanto, é claro que o serviço precisa de modificações, grande parte delas urgente: é preciso que se crie uma escola de formação e atualização dos profissionais de fiscalização oficial; é preciso que se melhorem as condições de trabalho oferecidas a estes mesmos profissionais (que muitas vezes trabalham em condições heróicas), e é preciso sim que a parte do empresariado que quer armar tramóia e depois enfiar tudo via enema no S.I.F seja devidamente identificada e limada do mercado, porque em muitos casos (com ou sem o envolvimento de profissionais desvirtuados do serviço) serão eles que promoverão casos tristes como estes que temos assistido, colocando em risco a imagem do país frente ao resto do mundo.

Consuma e se informe de verdade.

Inspecionado.

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Tropa de Elite

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Nem estreou nos cinemas brasileiros, “Tropa de Elite” já suscitava uma série de discussões sobre a metodologia de ação do BOPE – Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Isso graças à praga da pirataria que vejam só, acabou sendo muito inteligentemente usada para alavancar a campanha de marketing do filme e antecipar a data de sua estréia para aproveitar o burburinho. É o “sistema sendo usado pra resolver o sistema”.

José Padilha – sujeito curioso esse – vive no momento uma doce ambigüidade: crucificado pela crítica, mas amado pelo público, o diretor do pouco badalado (e bela porcaria, como eu e Victor pudemos infelizmente constatar) “Ônibus 174” já foi inclusive intimado pela corregedoria da Polícia Militar para dar algumas explicações (e conta com o apoio do governador Sérgio Cabral Filho pra não dar bola pra essa bobeira).

elite-da-tropa.jpgPara mim, enquanto careta que sou, José Padilha fez um filmaço – e nem precisou apelar para a ficção. Tá tudo lá no livro em que ele se baseou (sem trocadilhos) pra montar o roteiro do filme.

Mas porque diabos o diretor está apanhando tanto da mídia por ter feito um painel da guerra contra o tráfico através da visão da polícia, enquanto “Ônibus 174” – que era uma verdadeira Ode de defesa da bandidagem – passou em brancas nuvens (tendo feito inclusive o caminho inverso: sucesso de crítica X fiasco de público)?

Para mim, enquanto careta, a resposta é simples: o filme toca numa ferida muito maior do que a violência (?) dos métodos de ação do BOPE. E não vou nem me dar ao trabalho de discutir a necessidade da ação enérgica dos policiais contra a horda de bandidos, assassinos, traficantes e aliciadores muito bem armados envolvidos no narcotráfico.

folhas.gifA ferida que Padilha expõe é MUITO mais dolorosa. É a demagogia, é a mentira, é a conivência, é a tolerância, a HIPOCRISIA das classes média e alta, do alto do voluntariado picareta, das ações sociais baratas, das obras comunitárias de fachada e dos “tapinhas inocentes de vez em quando” pelos corredores das faculdades e escolas (públicas e principalmente PARTICULARES) e das residências deste país.

Escolas PARTICULARES, você disse?? Sim, meus caros! Pobre tem dinheiro pra comprar droga? O perfil do aluno típico de escolas públicas não condiz com o de uma pessoa que tem que desembolsar uma bela soma de reais pra comprar o seu tijolo de erva ou os seus pacotes. Porque o tráfico cobra à vista. Senão é cova.

E nesse contexto, muita gente “de bem”, muito voluntário de merda, muito estudante filho da puta vestiu a carapuça. E muita gente formadora de opinião também, do alto das coberturas, dos salões de universidades, empresas e repartições e de dentro dos corredores das suas casas. Esses tomaram um tapa na cara que doeu muito mais do que o que qualquer bandido do filme – ou da vida real – levou.

E aí, pau no Padilha. “Como é que esse sujeito tem a ousadia de retratar as coisas do jeito que elas são?? Quem é esse cara pra me dedurar?? Quem é esse filho da puta pra estragar o meu esquema??”… Doeu acordar e dar de cara com a culpa que cada usuário sem caráter carrega, de ser investidor e financiador do negócio mais organizado que existe: o crime. E um investimento sem retorno algum. Nem a curto, nem a médio, nem, a longo prazo. Um negócio em que só se perde. O que o Roberto Justus diria pra um aprendiz assim?

Confesso que foi muito bom ter visto este filme nesta altura da vida, porque se tivesse assistido enquanto estava na faculdade, haveria um perigo grande de me meter em merda, pois a minha tolerância com o “pobre e inocente usuário” foi bastante (pra não dizer completamente) reduzida*. Ou quer saber? Pena que não assisti enquanto estava na faculdade, porque ali eu poderia ter tido a chance de encarar o problema e dizer aos maconheiros de merda as verdades que talvez precisassem escutar.

O tapa que o BOPE do filme dá na cara da sociedade é o mais dolorido de todos.

É mais aceitável (absurdo dos absurdos) que o Padilha faça um filme culpando a sociedade pela criação, multiplicação e engorda dos marginais, pela “falta de oportunidades”, do que outro que exponha como na verdade funciona a “sociedade” que financia a bandidagem: uma minoria de filhinhos de papai e “intelectuais” de merda que envolve todas as pessoas de bem (uma maioria minoritária, a esta altura do campeonato) nas conseqüências de seus atos inocentes e “recreativos”.

Parabéns Padilha, por se recuperar e me fazer reavaliar o conceito que tinha sobre o seu talento. E obrigado por mostrar o que eu precisava ver.

OBS: Há quem diga que o filme depõe contra a imagem do Brasil no exterior. A estes eu questiono: quantos países que porventura estejam criticando podem de verdade falar da violência ou do narcotráfico em terras brasileiras? Quantos países desenvolvidos que porventura estejam criticando tem níveis de criminalidade reduzidos ou “aceitáveis”? E quantos têm a coragem de expor seus números e suas mazelas, sem precisar para isso se esconder atrás de guerras e atos de genocídio?

E quantos estão DE VERDADE criticando?

Pense nisso da próxima vez que deixar seu complexo de vira-latas falar mais alto.

*Tive que reeditar o meu post anterior sobre os Black Crowes, a fim de não me tornar eu mesmo vítima da minha antiga conivência.