SWU 2011 – Da lama ao caos

Nem vou me ater muito ao empenho logístico demandado para o comparecimento da Caravana do Tio Virso ao SWU 2011. Só isso renderia outro post.

Dia escolhido, o 14 de novembro sagrou-se de cara como data inesquecível e imperdível aos fãs do (bom) rock em todas as suas vertentes: tinha o punk-pop-rock do Duff McKagan’s Loaded; o ska-rock do 311; o metal do Megadeth; o hardcore do Down de Phil Anselmo; o surpreendente hard-rock(abilly) do Black Rebel Motorcycle Club; o rock melancólico de altíssima qualidade do Alice in Chains; o hard rock do Stone Temple Pilots; e aqueles que se encaixam em todas mas não se encaixam em nenhuma: o Primus de Les Claypool e o sempre perfeito Faith No More do frontman Mike Patton.

Um line-up pra roqueiro nenhum botar defeito. Quase um dream team da camiseta preta, por assim dizer. Deu até pra perdoar a bobagem da escalação do inexplicável Sonic Youth no mesmo dia, banda que sempre parece não saber o que fazer no palco, daí fica inventando um monte de maneiras bizarras de esfregar a guitarra em qualquer lugar pra tirar som (barulho) e sair como vanguarda.

E de fato, musicalmente, o dia não deixou pedra sobre pedra. Faith No More e Stone Temple Pilots quebraram tudo e correspoderam às (sempre altas) expectativas dos fãs, com um Mike Patton inspirado (bem diferente das outras apresentação América do Sul afora) e um Scott Weiland com a voz visivelmente baleada (coisa que quase tirou o STP do festival), mas que nem por isso deixou de dominar palco e platéia com seu peculiar modus operandi.

O Alice in Chains fez mais um de seus belíssimos shows, coisa de gente que canta com as vísceras. Com homenagem (no gogó, sem telão, sem presepada) a Layne Staley e Mike Starr (50% da formação original da banda, já falecidos) em Black gives way to blue, foi impossível a qualquer espectador permanecer impassível durante sua execução. Como não canso de dizer, o Alice in Chains é o verdadeiro legado de Seattle para o mundo. Quem não assistiu, agarre-se com unhas e dentes à promessa de Jerry Cantrell sobre um breve retorno da banda ao Brasil. Com toda certeza, estarei lá.

Duas grandes surpresas no dia foram a devastadora apresentação do Black Rebel Motorcycle Club e a competência do Primus. Longe de serem conhecidos pela maioria dos presentes, as duas bandas – de estilos distintos entre si e dos demais – dominaram as atenções desde o momento em que pisaram no palco. Meu parâmetro para a eficiência de uma banda é sempre esse: se tem poucas músicas conhecidas pelo público, mas ainda assim fazem com que ninguém consiga desgrudar os olhos do palco e manifestem seu contentamento, então arrebentaram. BRMC e Primus cumpriram as duas exigências com sobras. Ao fim de seus shows, geral prometia recorrer a meios lícitos e ilícitos de conseguir suas discografias.

Não vi o Down e vi pouco do Loaded, por alguns dos motivos que discorrerei como negativos do festival. Relatos do RB apontam que a apresentação de Phil Anselmo foi no mínimo HISTÓRICA, de fazer os fãs do Pantera verterem lágrimas. Deixo essa pra quem assistiu, pois a organização do festival não me deu essa opção.

Mas no que se refere à música, mesmo com 16h de chuva temporal quase ininterrupta na cabeça, não há do que se reclamar.

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A primeira impressão ao se entrar na versão paulista da Cidade de Rock foi boa. Havia organização no sentido de saber onde estava aquilo que se queria encontrar. Muito bem sinalizado, de cara a gente sabia como chegar às praças de alimentação, à cada um dos três diferentes palcos, à tenda de música eletrônica, banheiros, etc.

Dito isso, vamos ao PEOR do SWU 2011:

  • Que se foda, minha saúde primeiro! – Eu disse banheiros? Bem, perdoem a força de expressão. Quis dizer CHIQUEIROS, pois na prática eram exatamente isso. Não sei quem foi o genial projetista do festival que resolveu achar boa ideia instalar os banheiros químicos em área de chão batido – sem considerar minimamente que fosse a possibilidade de chuva (entenda-se dilúvio), que foi EXATAMENTE o que aconteceu. Resultado: uma verdadeira IMUNDICE, onde não se sabia mais em que se estava pisando. A melhor alternativa era se hidratar pouco para precisar ir até o local o mínimo possível. Ou fazer em locais alternativos, mais limpos porém de desagrado da organização. Havia um banheiro propriamente dito na área das arquibancadas, porém igualmente sem a menor condição de higiene, pois SEQUER FAXINEIROS HAVIA (n.e. verbo Haver no sentido de existir não tem plural, ok?). Disparado a pior coisa do festival, coisa pra sofrer interdição pela Vigilância Sanitária municipal, sem o menor exagero. Mais do que a chuva – e pior pela associação a ela – o grande fator destruidor de bom humor do dia;
  • Praça de chafurdação – o mesmo projetista colocou também a praça de alimentação em área de terra. Virou outro lamaçal inóspito e inacessível, o que deve ter sido estratégico pra empurrar a galera para a praça de alimentação vegan (que era bem boa, registre-se). A saída foi comer kibe de soja o dia inteiro, pois quem quisesse algo mais tradicional corria o risco de atolar e não assistir mais nada até o resgate dos bombeiros;
  • Palcos pra que te quero? – No SWU, cada escolha implicava em uma renúncia. Isso é INADMISSÍVEL em um festival de música. Tive que optar entre assistir o STP ou o Alice in Chains, da mesma forma que houve a necessidade de se escolher entre Primus e Megadeth e entre AiC e Faith No More. Ou seja, quem sonhava em assistir todas essas bandas fodonas se fudeu de verde-e-amarelo. Com os dois palcos frente a frente e distantes cerca de 300m entre si, com 5 a 10 min de intervalo entre os shows, tornava-se humanamente IMPOSSÍVEL encontrar um bom lugar para assistir o show seguinte se você estivesse no outro palco. Tremenda bola fora;
  • Sonic Youth;
  • Rali compulsório – enquanto a galera se divertia como podia dentro do festival, a chuva comia solta lá fora. Na área de estacionamento inclusive. E só foram descobrir isso na hora de ir embora. Muita gente saiu do festival às 3:30h da manhã e ficou atolado até as 06h, quando por sorte ou imaginação conseguiam tirar os veículos dali. Organização? Nem tomou conhecimento disso. Ou o cara se virava sozinho ou estaria lá até agora;
  • Prejuízo inesperado – ao fim do festival, magicamente desapareceram todos os atendentes dos stands de comida/bebida. Os ambulantes credenciados só aceitavam dinheiro vivo. OU SEJA: quem comprou tickets (o dinheiro do SWU) com antecedência pra evitar as filas posteriormente MORREU SOLENEMENTE NA GRANA QUE NÃO CONSEGUIU CONSUMIR. Sem choro nem vela, sem ressarcimento. Deve ser pra obrigar o cara a voltar em 2012, só pode.

Fosse um dia ensolarado, alguns desses defeitos estariam minimizados. Mas quem projeta um festival grande assim necessariamente tem que atentar pra esses detalhes. Ainda mais porque a intenção da organização é realizar as próximas quatro edições do SWU neste exato mesmo local. Muita coisa precisa ser repensada, pois as expectativas eram altíssimas para o dia e acabaram (em parte) frustradas pelos acontecimentos e pela falta de planejamento para as contingências.

No frigir dos ovos, restou o rock pra salvar o povo.

Como sempre.

14 thoughts on “SWU 2011 – Da lama ao caos

  1. Por favor, dê um jeito de fazer com que esse PRECISO relato chegue aos organizadores. Aproveite para sugerir que seja repensada a época do ano em que se realizará a próxima edição.

    • Valeu, Gustavo.

      Tentei fazer o meu melhor em descrever o que vi por lá. Muita coisa positiva, ressalte-se:

      1. A qualidade da comida;
      2. Preços (nem tanto) abusivos;
      3. Coerência da escalação do line-up;
      4. Inexistência da asquerosa área vip;
      5. A qualidade do som.

      Mas os pontos negativos, intimamente relacionados à falta de previsão das intempéries (além claro, da falta de absoluta de faxineiros – o que foi uma GIGANTESCA BURRADA mesmo, além de uma afronta à saúde pública), comprometeram tudo.

      Precisam mesmo de uma reavaliação URGENTE.

      *****

      Estou tentando divulgar o relato como posso, via Twitter, Facebook, etc.

      Toda a ajuda é bem-vinda, até porque não quero nada com isso a não ser ajudar a resolver os problemas que tiraram o meu humor e o de MUITA gente.

      Abração!

  2. uma pena que o SWU é longe pra mim. Pelos nomes que vi
    SWU >>>>>>>>>>>>>>>> RiR

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    Sonic Youth é uma banda que existe há mais de 30 anos. Lembro que os caras até eram novos quando escutei pela primeira vez.
    Eles fazem esse MESMO som desde o início dos anos 80. É o estilo dos caras. Não vi nenhuma parte desse show deles no SWU, mas no final dos 90s ou início dos 2000, fui num show dos caras no MAM aqui no Rio. Acredite, há musicalidade no meio do barulho todo.
    Talvez deveriam ter colocado a banda em outro dia.

    • É o que eu disse: a coerência do line-up foi o que salvou a experiência da TOTAL CATÁSTROFE.

      Não fosse a música, estaria eu agora fazendo apologia ao boicote da edição 2012.

      Os caras tem tempo de sobra pra planejar um troço decente. Imagina o caso de quem despencou centenas ou milhares de quilômetros (até porque Paulínia é LONGE PRA CACETE) e só chegou a tempo de passar perrengue. Esse não voltaria nunca mais se a escalação ainda fosse ruim.

      Salvou-se o rock, APESAR do Sonic Youth. Não deve ser à toa que estão encerrando atividades. Não há criatividade que resista 30 anos àquilo. Aliás, 30 anos foi longevidade absurda pr’aquilo ali.

      • pois é… tenho muita coisa pra reclamar das organizações desses grandes eventos. Acho que passei perrengue em todos que fui. Raríssimos são os que não têm problema algum (e é até difícil lembrar de um). NUNCA é 100% tranquilo.
        Só que confesso que não tenho mais paciência de reclamar. Desisti disso, mas louvo quem faça com bom embasamento como o texto desse post.

        ****
        Pois é cara, 30 anos não é pra qualquer um não. Alguma qualidade tem (teve) ali.

        • Hollywood Rock 1993 na Apoteose.

          Festival irretocável. O Xerox não me deixa mentir.

          *****

          Mas tu tá certo. Perrengue a gente sempre passa num evento grande assim.

          Mas a total falta de condições higiênicas do SWU foi caso sério, disparado o maior perrengue que já passei em alguns festivais que fui.

          Fora a bobagem da distância dos palcos, que querendo ou não penalizou o público.

          Espero que revejam isso pro ano que vem.

  3. Bizarrão isso de ter que renunciar uma banda pra ver outra. Isso é o pior de todos os itens aí, na moral. Os perrengues nego encara e tal, tudo pelo BEM MAIOR, mas perder o show da banda, por minutos que seja, é escroto demais.

    Achei Down e Alice in Chains os mais fodões.

    Phill Anselmo insano. Com o passar do tempo a voz desses caras costumam definhar, mas a dele continua no timbre do SATANÁS.

    Tenho um pé atrás com mulher no vocal e vocalista substituto (AQUI É TRADIÇÃO, RAPÁ!), mas esse DURVAL aí manda bem. Embora nas antigas fique meio estranho, mas É DO JOGO.

    • O erro dos vocalistas substitutos é tentar tomar o lugar dos outros, tentando se estabelecer na marra ou meramente imitar o antecessor.

      Duvall chegou devagar e, mais importante do que isso, mantém músicas de qualidade quando escreve com Cantrell. Nunca vai ser a mesma coisa, mas como tu falou, é do jogo.

      A vantagem do AiC é que os vocais sempre foram divididos. Cantrell fazia uma segunda voz (e às vezes a primeira) com competência. Daí prum cara inteligente, é só explorar a química pois a identidade não é de todo alterada.

      Curto o Duvall. Tem tudo pra alçar vôos maiores com o AiC. Próximo show por aqui, estarei presente.

  4. Outro show fodão do dia foi o BRMC.

    E olha quem está ali acenando pra você em 3’36”, hahahahahahaha…

    Gaburah, aterrorizando as transmissões ao vivo. Since 2009 =)

  5. “…Não sei quem foi o genial projetista do festival que resolveu achar boa ideia instalar os banheiros químicos em área de chão batido – sem considerar minimamente que fosse a possibilidade de chuva (entenda-se dilúvio), que foi EXATAMENTE o que aconteceu.”

    A partir de agora, fica sabendo! hehehe
    http://www.youtube.com/watch?v=TS509HEfI9Y

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