A primeira vez dos X-Men

AVISO: este texto contém pesados SPOILERS. Se ainda não viu o filme, é recomendável que dê meia volta e retorne outro dia. Eu avisei.

Cerca de uns cinco meses atrás começou uma polêmica danada na internet com foco em algumas imagens publicitárias inacabadas dos personagens de X-Men: First Class. Geral caiu de pau e deu-se início então a uma vasta campanha difamatória do filme, que até levou o diretor Matthew Vaughn (que já tem fama de ser um sujeito tradicionalmente pouco paciente) a perder a compostura em entrevista.

A First Class original

Devo ter alguma testemunha sobre isso: se houve uma dúvida que NUNCA tive, foi a de que esse filme seria, invariavelmente, bom. Minha lista de razões era encabeçada pelos selos de qualidade James McAvoy e Michael Fassbender (atores absurdamente bons), o próprio diretor (que fez o injustamente subestimado Stardust e o divertido Kick-Ass) e o fato de Bryan Singer estar fora da direção (é produtor neste aqui).

Se magoei alguém, explico: simplesmente não gostei de nenhum dos filmes anteriores dos X-Men, isso pra nem mencionar o samba do crioulo doido que foi o filme solo do Wolverine. Singer divide essa culpa com a FOX (detentora dos direitos cinematográficos de todo e qualquer mutante que a Marvel tenha criado em seus mais de oitenta anos de história, e que justamente por isso toma toda e qualquer liberdade que queira com os personagens) e com a própria Marvel (que os vendeu na base do sufoco). Mesmo no ótimo Os Suspeitos, Singer (na minha modesta opinião) mostrou que é um cineasta de roteiro, um cara que prima o que faz puxando pela inteligência (do texto e de quem assiste).

E é bem aí que mora o problema. Uma das razões da Marvel ser tão querida é justamente porque em suas páginas a porrada canta solta. É ação em cima de ação. E ação não é o forte de Singer.

Mas pra falar deste filme aqui, o primeiro verdadeiramente bom sobre o mais famoso grupo de mutantes da Casa das Ideias, funciona. E é simplesmente empolgante enquanto gira suas atenções na origem e nas ações de seus protagonistas (Magneto e Professor X). Se o filme pairasse somente sobre a história de ambos, seria um épico. O tom de filme de espionagem, a estética, a trilha sonora… tudo funciona e contribui para adensar a atmosfera histórica em cujo contexto o enredo está enraigado. Michael Fassbender faz um Magneto literalmente magnético, um personagem com o qual é simplesmente impossível não se envolver. E até torcer, mesmo do alto de suas ações radicais (mas a gente entende porque ele chegou àquele ponto). O que só fez crescer a qualidade de James McAvoy por tabela, colocando seu Professor X em pé de igualdade com o mestre do magnetismo na tela. Fosse outro ator, provavelmente teria sido colocado no bolso por Fassbender. Uma aula de dramaturgia, pasmem, num filmão descaradamente pipoca.

E se Magneto não é, por definição, o grande antagonista do filme, nenhum dos dois teria condição de mostrar serviço não fosse a caracterização brilhante que Kevin Bacon dá a seu Sebastian Shaw (um mutante que, confesso, em minha adolescência quadrinista nunca entendi direito qual poder possuía. Só percebia que ele era um pica das galáxias e tal, mas não sabia bem o porquê). Quando o chefão do Clube do Inferno aparece na tela, faz medo em Charles e Eric. Não é tarefa fácil, acreditem.

O cara é O CARA.

E aí entra o calcanhar de Aquiles do filme: justamente, oras oras, os próprios X-Men. Pra começo de conversa, a FOX paga de cara pela sua ingerência dos personagens. Já que já usou uma penca dos X-Men da Primeira Classe original nos outros filmes, não dava pra respeitar a mitologia neste (os outros filmes são referências intangíveis, porém frequentes durante o First Class). Então saem o Anjo, o Cíclope, o Homem de Gelo e Jean Grey e entram o Destruidor (vá lá, é contemporâneo), Darwin (nem lembrava desse, se é que existiu nos quadrinhos), MÍSTICA (!!) e a Firefly (obscura personagem de enésimo escalão, que na tradução em português sofreu o infeliz rebatismo de… ANJO! Puta que pariu…). O resultado é uma espécie de Malhação: Mutante, que tem toda a cara de que foi feito para agradar aos fãs de Crepúsculo.

Da First Class mesmo, sobraram Banshee (forcei?) e o Fera (cuja origem até que foi respeitada, apesar de um certo exagero nas atribuições do Dr. McCoy). Aliás, outro ponto fraco é justamente o visual do Azulão. Ficou parecendo bicho de pelúcia daqueles brinquedos caça-níquel… muito esquisito. Dava impressão que espetava.

E falando em pontos fracos, outro deles é uma caricata cena de combate aéreo entre Banshee e Firefly. Coisa de filme dos Trapalhões aquilo ali.

E Azazel no filme? Cronologicamente errado, mas uma figura importante que protagoniza algumas das melhores cenas de ação. Noturno ficaria orgulhoso de ver o papai em combate.

E faltou peito à FOX na hora de mostar PORQUE Magneto é vilão mesmo. Quem conhece alguma coisa dos quadrinhos, deve se rasgar de raiva com o desfecho da cena do embate entre ele e as frotas navais americana e soviética. Afinaram bonito e perderam a chance de fazer um troço denso, adulto, a la Watchmen. Mas é um filme pra criança, Gaburah… eu sei, mas sou chato. Nas HQ’s aquilo é altamente impactante. Ilustro minha frustração mais ou menos assim.

Mas nada, repito: NADA supera minha decepção com a Rainha Branca. Emma Frost mereceria (e poderia ter tido) um acabamento MUITO melhor nas telas. Jogaram um balde de água gelada em cima de um dos meus maiores fetiches adolescentes. Essa eu não perdôo, entra como uma das maiores decepções pessoais nas adaptações cinematográficas de quadrinhos.

*****

Se um dia considerarem Fassbender para ser o próximo James Bond, desde já garanto meu apoio incondicional.

*****

Não, Wolverine não está mesmo (…) no filme. Mas a razão que arranjaram pra isso é tão simples quanto GENIAL.

*****

Não tem cena pós-créditos. Podem sair correndo pro banheiro tranquilos.

13 thoughts on “A primeira vez dos X-Men

  1. Michael Fassbender faz mesmo a gente respirar um certo ar de ‘Bastardos Inglórios’ em ‘X-Men: First Class’. Que atorzaço, bicho.

    James McAvoy e Kevin Bacon não deixam a peteca cair nem Magneto fazer sombra. Sozinhos, os três já valeriam o filme.

    Fassbender seria o Lagarto no novo Aranha. Desistiu pelo Magneto. Pro Lagarto, escalaram o igualmente foda Rhys Ifans. Deve ser o que vai salvar o filme.

  2. Excelente resenha Xerox!

    Não somos mutantes mas pensamos a mesma coisa, o que no contexto geral, não desclassifico minha impressão de FILMAÇO!

    Abçs

  3. Grande filme!

    Melhor da série X de longe.

    Ainda mais pra mim que não conheço tão bem os mesmos e não tinha esse problema com a história de cada um.

    Mas curti muito.

    Meu filme valeu demais por uma cena, apesar de nem ter achado-a a melhor de todas!

    GO FUCK YOURSELF!

    *****

    No mais, um abraço!

  4. o filme tem tudo que me irrita: coitadismo Bar Mitzvah + USA vs CCCP.

    Mas é X-Men, só babaca não curte.

  5. Alguns comentários:

    – Gostei do filme! Pura diversão!
    – Michael Fassbender arrebentou como Magneto;
    – Os Supeitos, que você mencionou acima, é um dos meus filmes favoritos;
    – Kevin Bacon é o melhor ator para interpretar um cara pica das galáxias, porque ele faz uma cara de “sou foda” que vou te dizer!
    – Aquela Sininho Funkeira que chamaram de Anjo tava fraca mesmo no contexto;
    – Aquele diabo do Pânico (Azazel) era o Bilhete Único da galera. Só tava ali pra transportar geral… uaheuahuehauh

    No mais só elogios. Gostei de verdade!

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