Tropa 2 – O buraco é mais embaixo…

Rafael Bender é rubronegro tradicional, ou seja, chato pra cacete. Mas toda a celeuma em torno das questões futebolísticas fica restrita ao  Blá Blá Gol, blog reconhecido pela ONU como o Oriente Médio dos blogs sobre futebol. No geral, é uma cara bacana, um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones

Por Rafael Bender

Tropa de Elite já tinha virado polêmica antes mesmo de começar com toda a pirataria que envolveu o lançamento do 1º filme. Para a segunda trama foi montado um grande esquema de segurança. Um filme que suscita séries de discussões já pode ser considerado bom. Mas Tropa 2 é ainda mais. Como o Tropa 1 prende a atenção desde o primeiro minuto.

A comparação entre os 2 longas torna-se inevitável. Enquanto o primeiro discorre sobre a hipocrisia de uma sociedade, traça o cotidiano corrupto do “sistema” (em especial a Polícia Militar) e mostra as operações e forma de agir do BOPE, o segundo tem uma história mais abrangente. Tropa de Elite 2 não se resume apenas ao BOPE e ao maconheiro que acha não ter nada demais queimar unzinho. José Padilha aproveitou com maestria o sucesso do 1º filme e lançou o 2º, novamente se utilizando de um problema do Rio de Janeiro mas, dessa vez, o expandiu como um problema do país.

[SPOILERS ON]

O filme mostra um Capitão Nascimento (agora Tenente-Coronel do BOPE) 10 anos mais maduro. Quando “cai pra cima”, como ele mesmo define no filme, torna-se subsecretário de Segurança Pública do Estado do Rio. Com o up-grade, reestrutura o BOPE, transformando-o “numa máquina de guerra”. Tema muito atual da realidade do Rio de Janeiro: com o combate ao crime organizado sendo eficaz, os policiais corruptos sacaram a chance de uma nova forma de organização (auto-ajuste do “sistema”) em detrimento ao tráfico de drogas, as milícias. Dessa forma, vai-se direto na fonte e elimina-se o intermediário (traficantes), o que sempre aumenta o lucro.

Ali, Nascimento percebe (ou demora a perceber) que o buraco é mais embaixo. A rede é maior do que se imagina. O “sistema” é todo interligado. Desde os peixes grandes aos nanicos. Padilha escancara toda a hipocrisia e cara-de-pau dos políticos brasileiros como a participação do governador em festividades nas favelas com milicianos armados e com sensacionalistas apresentadores de TV de duas caras (políticos). Assistindo ao filme pensava comigo: “corajoso esse cara é”.

O filme ainda traz uma figura manjada na nossa vida real, porém essencial para as discussões no filme: um pseudo-intelectual de esquerda. Capitão Nascimento trava uma batalha pessoal no campo ideológico com o cara dos “Direitos Humanos” que quase chega às vias de fato (assistindo ao filme entende-se o por quê). Posteriormente, percebem que estão do mesmo lado, mas com visões diferentes.

As politicagens, artimanhas, os detalhes, os mecanismos, os interesses diversos, tudo é abordado na trama. Muito interessante é o foco do filme, principalmente nessa época de campanhas eleitorais e seus “financiamentos”. A maconha e o pó, objetos de consumo do Tropa 1, dão lugar ao voto. É a corrida, a busca pelo poder. O “sistema” é todo voltado visando à perpetuação dos corruptos.

Capitão Nascimento parte para o combate, mas percebe que a guerra que trava contra o “sistema” é inútil, através de sua relação (até certo ponto complicada) com seu filho adolescente. A cena final do filme deixa claro quando o protagonista solta o verbo na Assembléia Legislativa dizendo que não tinha como responder à pergunta feita pelo filho quando ainda era criança. Se a louça está acumulada, imunda e cheia de resto de comida, não adianta matar a barata, pois aparece outra. É preciso fazer a limpeza da pia. Dá muito mais trabalho, mas é o que resolve.

Como tudo é jogado na cara, você passa a refletir sobre alguns problemas do seu próprio cotidiano que, na teoria, seriam simples de serem resolvidos. Dois exemplos que me veem é o acúmulo da função de trocador nos ônibus pelo motorista e a merda do comprovante de pagamento que apaga 1 mês depois. Era para ser simples. Determinava uma lei impedindo tais abusos e ponto. Mas a força política dos donos de empresas de ônibus e dos bancos provavelmente é grande. Está tudo no “sistema”.

Depois, para não deixar dúvidas, Padilha ainda dá um take onde é mostrada Brasília. Pra mim, faltou a legenda: “QG Central”, mas ficou subentendido.

Claro que já rolam boatos de um 3º filme. Padilha afirmou que não tem a intenção de um Tropa 3. Eu concordo com ele, não é necessário. O recado está dado.

****

Quanto ao aspecto técnico do filme não posso opinar muito. Sou um mero apreciador de bons filmes, bons efeitos e bons atores. Sei que além da mega qualidade da produção, me surpreendeu em Tropa de Elite 2 as atuações de quase todos os atores (inclusive com um toque de humor).

Arriscando-me um pouco.

Tive a impressão que as cenas do Tropa 2 foram mais curtas que do 1. Era muito assunto para um filme só.

Mais detalhes sobre cenas, o que você achou disso, daquilo… nos comentários. Até porque já explanei demais e tem maluco que ainda não assistiu.

15 thoughts on “Tropa 2 – O buraco é mais embaixo…

  1. Não vou soltar mais spoilers do filme, então vou deixar pra comentar uns detalhes na semana que vem – quando acho que enfim todo mundo já vai ter tido a chance de vencer as gigantescas filas que perseveram ainda nesta terceira semana de cartaz.

    Mas registro dois sentimentos: as risadas com as excelentes tiradas do Coronel Fábio (Milhem Cortez) – coisas de gênio – e o choque emocional com que Padilha presenteia a platéia em determinada cena, mostrando louvável desapego em nome das coerências com o realismo que seu filme exige.

    Muito bom mesmo, mas dói fundo na alma.

    • Fui assistir logo no primeiro final de semana. Não gosto disso, mas eu queria ver o filme. O Coronel Fábio (Capitão Fábio no Tropa 1) está mesmo demais. Logo quando aparece já temos gargalhadas e, com tais risadas, não escutava a próxima fala (dele mesmo ou outro personagem).
      É bacana a reação da galera com o cinema lotado. Mas tem essas paradas. Não preciso nem dizer que aplaudiram no final, o que acho esquisito, mas não condeno (a até apoio, como foi nesse caso).
      Pretendia ir de novo para pegar o que perdi, mas acho que vou mesmo esperar o dvd e assistir em casa.

      MAIS SPOILERS

      Não sei se é essa cena que vc está falando, mas foi a reação de vibração mais marcante da platéia a cena do Nascimento esmurrando o corrupto.

      Saí do cinema com aquela sensação de “não tem jeito mesmo”, mas satisfeito por alguém que se faz ouvir estar jogando a merda toda no ventilador.

      • SPOILER GIGANTE

        Não foi essa, apesar da reação da platéia por aqui não ter sido menos intensa.
        O que me chocou muito (mas fez todo o sentido) foi o desfecho da ação do BOPE coordenada pelo Mathias na busca pelas armas na favela. Sacou?

        O filme é todo bom, sem ressalvas. Talvez só uma que me chamou atenção: o cara que monitorava as câmeras de Bangu I na rebelião logo no início. Atuação horrorosa, mesmo para um papel pequeno… over pra caraca.

        Coronel Fábio é engraçado pra caramba. Nem herói nem vilão. Um cara que só quer defender o seu mesmo que atropele a ética em nome disso. Há quem defenda que fosse o vilão num eventual Tropa 3, mas não vejo o menor sentido nisso. vaselina do jeito que o personagem é, o negócio dele nunca seria esquentar a cabeça comandando coisa nenhuma. É muito mais negócio fazer vista grossa e continuar tirando o seu sem preocupações maiores…

        Incrível como esse tipo de personagem amoral conquista a platéia…

        • Saquei.
          Vamos dar mais algum tempo pros malucos que ainda não assistiram.

          Aquele cara que pede um cafezinho enquanto o bicho tá pegando? Não reparei se a atuação dele foi destoante. Lembro que foi, como vc disse, bem curta. Talvez os comentários do cinema cheio tenham desviado um pouco a atenção.

          Perfeito seu comentário sobre o Fábio. O cara faz um personagem cara-de-pau, porém no maior estilo bon vivant. Se vier mesmo um Tropa 3, ele deve continuar no mesmo ritmo: “essa pica não é mais minha”. Hahahaha…

  2. ESSE COMENTÁRIO PODE OU NÃO CONTER SPOILER. LEIA POR SUA CONTA RISCO. EU CONTROLEI A AFLICETA E SÓ ENTREI NESSE POST DEPOIS DE VER O FILME. FAÇA O MESMO. NEM ESCREVI AINDA O COMENTÁRIO MAS VOU ESCREVER O QUE ACHAR NECESSÁRIO PARA A CONVERSA.

    NÃO LI O POST AINDA E NEM OS COMENTÁRIOS. MAS QUIS DEIXAR REGISTRADO ANTES MEUS PONTOS DE VISTA

    ****

    Tropa 2 deveria se chamar Tropa 3 e fechar uma TRILOGIA.
    Colocassem qualquer coisa no meio para ser o 2 e esse no final, como Miguel enveredando-se na política norte-americana tomando porrada do Banco do Vaticano.

    Curti e me diverti bastante, muito embora ache o 1º um filme ABSURDAMENTE mais enigmático no tocante a gerar discussões e encher a cabeça de neguinho de caraminhola.
    Contribui para isso, o fato de em Tropa 1, Padilha subverter o senso comum e defender a polícia (ainda que para isso use uma parte da polícia) e expor os babacalóides da Cantareira/Candongueiro, maconheirozinhos da Belas Artes da UFRJ e muita gente que anda com a rapaziada.
    Padilha em Tropa 1 dividiu opiniões até porque o filme tinha em si um ar fascista aos olhos de quem via Nascimento como protagonista.

    Em Tropa 2, um filme que já nascera com a expectativa e apreciação do público, Padilha foi no inimigo em comum e aceito: Políticos.
    Isso ao meu ver, ao contrário do que ouvi de pé de ouvido sempre tentando me afastar, não gera maiores reflexões. É uma mera caricatura e fixão em lugares-comuns.
    Por sorte, eu entrei no clima da diversão desde o início e entrei na onda do “Godfather 3”. Desta forma, achei o filme bem legal. A caricatura do “Léo Bruno me divertiu às pampas. Chorei no cinema e foi confortável ver o filme com essa associaçao imediata. Daí, para identificar os demais personagens foi um pulo. De bom humor, curti as caracterizações CassetóidePlanetóide que tomaram conta da trama para divertir e estarrecer o carioca razoavelmente bem informado.
    Mas voltando ao cerne de gerar polêmica, Tropa 2 não acrescenta em nada porque agiu como um programa de humor fazendo boa caricatura de vilões habituais.

    Dito isto, passo para o que me importa, que é a ação e a trama secundária em si. E esta também foi divertida, mas por perder muito tempo e dar uma importância na caricatura dos personagens da política carioca, ficou aquém, bem aquém, da mostrada em Tropa 1 ao apresentar as ações do BOPE e dar a áurea de anti-herói ao Nascimento (segundo maior cerne de discussões depois da culpa dos maconheiros da faculdade sobre o tráfico – seria Nascimento um fascista?), Tropa 2 não surpreendeu e ficou sem ritmo.
    Por outro lado, a lenga-lenga com os personagens menores sumiram e acho que o cinema nacional GANHA muito com isso. Tropa 2 tirou as setas kibeloquistas.

    Por exemplo, em Tropa 1, os maconheiros da faculdade foram apresentados, reprisados e enfatizados como os maconheiros que geram o crime. O filme inteiro até levar o semi-desfecho dramático deles no micro-ondas para a apoteose do Mathias dando porrada na passeata que mostra que tudo fica como dantes no quartel de abrantes. No 2, o professor que inicia na aula da faculdade fazendo contas das que eu faço no BBG leva a crer que vai ficar nessa onda fácil de jogar culpa nos esquerdóides, mas o cara ganha complexidade e é mostrada suas ações no jogo político com certa complexidade que não dá para definir claramente pelo filme, até que ponto o cara dos Direitos Humanos é um babaca ou não.
    Outro personagem que poderia entrar nessa, foi a repórter. Ponto alto do filme para mim ao colocar a SUTILEZA como marca do filme. A mulher sem importância e relevância na trama foi morta e pronto. Sem drama sem nada, e o auge técnico do filme foi sem alarde os caras arrancando os dentes da mulher. CENA ANTOLÓGICA PARA O CINEMA NACIONAL (feitas com meros coadjuvantes, o que eleva Padilha ao Olimpo dos Grandes).

    Já me perdi nos comentários, então para fechar aqui e depois vai com pílulas até na interação com os outros comentários, curti as frases e expressões, mas achei também que o 1 foi mais marcante. Porém, conversando com Ana Paula ao sair do filme ela atentou para o seguinte:
    Em Tropa 1, as expressões eram gritadas na voz do Nascimento, o que é muito impactante e marcante, além de terem sido batidas por Tropa de Sofredores e serem frases de comando. As frases de Tropa 2 estão divididas por vários, e as mais fodas com o Fábio, mas são frases ligeiras que não pegam como chiclete.
    Na mesma essência das frases, Cidade de Deus com aquele linguajar favelado com a voz de taquara rachada do Zé Pequeno arrebentaram. Desta forma, em termos de colocar o palavreado na boca da galera: CdD > Tropa 1 > Tropa 2.

    ****
    Ah… já ia me esquecendo: FABULOSA a atuação do Espinosa que fazia o Rocha.
    Mermão, o maluco porque ele encarnou a mudança do policial ainda submisso ao Fábio para o bam-bam-bam. Porra, chegou a dar medo porque a gente vê cada figura com esse “sheipe” que parece que pegaram um miliciano de fato para interpretar. Esse Espinosa foi a meu ver a grande ATUAÇÃO do filme. Oscar de Melhor Coadjuvante FÁCIL.

    • … o professor que inicia na aula da faculdade fazendo contas das que eu faço no BBG leva a crer que vai ficar nessa onda fácil de jogar culpa nos esquerdóides, mas o cara ganha complexidade e é mostrada suas ações no jogo político com certa complexidade que não dá para definir claramente pelo filme, até que ponto o cara dos Direitos Humanos é um babaca ou não.

      Brilhante, Victor. Tive exatamente essa mesma impressão sobre o personagem. Criei ódio imediato por ele logo na sua primeira aparição, e terminei o filme sem saber direito se mudei eu ou se mudou ele – face a todos os acontecimentos que explodiram na tela.

      A habilidade do diretor e – óbvio – dos roteiristas do Tropa 2 não pode passar em branco. O cinema nacional criou uma obra-prima que deixa na poeira diversas megaproduções caríssimas de Hollywood, por mais estrelas e dólares que a componham.

      Além de tudo com que brinda a sociedade brasileira – mesmo aquela boa parte que tem preguiça de pensar – a saga da Tropa é uma verdadeira AULA DE CINEMA.

    • O trecho abaixo é uma parte de um email meu, oriundo de uma troca de emails entre mim e Zeca (vulgo Za0) em 13 de outubro de 2010.

      Eu achei o final perfeito. Mas deveria ser o final do Tropa 3 (…) Tropa 2 poderia acabar na emboscada sem a gente saber se o Capitão Nascimento morreu e deixar o suspense pro 3º filme (…)

      Za0 acha que o 1º filme é MUITO melhor que o 2º. Eu acho o 2º um pouco melhor que o primeiro.

      ****

      O lance é que quando eu soube da existência do Tropa 1, a cópia pirata já estava no dvd na casa de um colega e acabei assistindo. Resultados muito favoráveis não esperados causam mais impactos.
      Como vc disse, Tropa 2 já veio com grande expectativa, que foi atendida. Não causou o impacto do 1º filme.

  3. Pingback: O RJ e a vontade política « Barecon

  4. Assisti o filme no final de semana pela 2ª vez. Não mudou nada. Apenas peguei umas falas que ficaram perdidas no falatório e risadas de um cinema lotado. Minha segunda sensação só corrobora que o filme é bom demais.
    Mas corrobora também a passagem que escrevo “Capitão Nascimento parte para o combate, mas percebe que a guerra que trava contra o “sistema” é inútil”. Fiquei mesmo com a impressão de que a guerra do Tropa 1 é possível de ser ganha, mas a do Tropa 2… é bem mais complicada.

    • Maneiro. Cliquei pra comentar lá mas o sistema de comentários é muito ruim.

      Discordo do cara. Os “Tropas” não são um filme só. O cara pode até ter encarado como tal. Mas o Tropa 1 tem toda uma trama com início, meio e fim. Se o filme acaba, ele já é um filme “fechado”, independente se teria uma continuação ou não.

  5. Assisti o filme tropa de eleite 2 e fiquei mais revoltado com os puliticos do que ja era, pois sao todos uma corja de sem-vergonha exatamente como o filme expos. Gostaria de saber quando e que o BOPE vai entrar em brasilia e expulsar todos os bandidos de colarinho branco, pois para mim nao sao diferentes dos do morro do alemao.

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