Primeiro os comentários triviais de turista: Paris é uma cidade realmente bela, dona de uma arquitetura clássica e monumentos que fazem jus ao termo. Aliás, em Paris cada prédio é um monumento e por isso a cidade faz a alegria e inspira engenheiros e arquitetos do mundo todo. Entende-se como a cidade fez Hitler cair de joelhos mesmo a tendo invadido.
Deslumbrante caminhar pela famosa Avenida de Champs Elysées e seu comércio de tirar o fôlego, dando de cara com l’Arc de Trioumphe ao final do caminho. Romântico caminhar às margens do Sena e suas praças arborizadas. Obrigatório visitar o Louvre e suas intermináveis e gigantescas alas – coisa que sinceramente o cara tem que tirar uma semana se quiser conhecer tudo como se deve. Caminhar pelo centro da cidade e observar como tudo é caprichosamente preservado, não existem espigões e arranha-céus, como a rede de metrô é ágil e onipresente. Constatar a famosa falta de cordialidade dos vendedores das lojas do centro – o que se não é regra, também está longe de ser exceção. E tudo isso à luz do dia. Porque à noite…
Paris realmente se transforma à noite. É uma outra cidade, a cidade-luz. E instantaneamente me veio a lembrança de um amigo fotógrafo que uma vez me disse: luz é tudo. A iluminação bem aplicada, estudada, planejada valoriza o que está sendo mostrado.
Outra coisa interessante é constatar a quantidade de etnias, idiomas e costumes que interagem em qualquer ponto da cidade. Africanos e suas túnicas, russos, árabes, portugueses, indianos, suecos, europeus de todos os lugares, turistas brasileiros e japoneses em profusão. Aliás, cheguei a comentar com o meu guia Philippe – codinome O Francês: “O Brasil é o novo Japão quando o assunto é turismo” (e aí o dólar diparou). Pra onde se vai tem brasileiro tirando foto*: é mineiro, é carioca, é paulista, é sulista, é nordestino e é claro, é niteroiense (Niterói ainda vai dominar o mundo). Todo mundo convivendo em uma harmonia que se não é perfeita (graças às brigas de gangues das periferias e à óbvia falta de oportunidades para todos), impressiona pela naturalidade. A França de maneira geral anda até preocupada com essa harmonia toda. O país é o centro nervoso da Europa: situado no meio do caminho pra qualquer lugar. Basta olhar pro céu e observar a assustadora quantidade de aviões voando ao mesmo tempo no espaço aéreo em todas as direções (sem exagero, teve um dia que contei 14). E isso é claro possibilita a entrada e permanência de imigrantes de todas as partes, inclusive daqueles países que são ainda colônias francesas. Não estão colocando ninguém pra fora na marra, mas a política de imigração está se tornando mais rígida principalmente para os imigrantes que não se preocupam sequer em falar francês (é sério) e que permanecem à margem.
Andando pelas ruas, observa-se as paixões do parisiense: os cães (que tem livre acesso à qualquer lugar – shoppings, banheiros públicos, ao metrô, bares), que não são mal-educados (e nem podem, porque senão o dono é multado); a bicicleta (que assim como os cães tem livre acesso pra qualquer lugar); o cigarro (ô povo pra fumar); o café; os quadrinhos (de acabamento fino, encadernados e de todos os tipos) e a política (Sarkozi é o alvo preferido de todos, amado e odiado). Um povo que trabalha muito, reclama mais ainda e faz barulho por tudo (passeata por qualquer coisa).
E aí alguém pergunta: qual foi a coisa que mais impressionou. Sem pestanejar eu mostro.
Realmente até então nunca tinha entendido tão bem o significado do termo maravilha da engenharia. Talvez esse alguém até ache um exagero tanto deslumbre por um mero monumento, uma coisa que não tem lá tanta aplicação prática para facilitar a vida das pessoas. Mas o meu argumento é que nem só de pão vive o homem. Tem coisas que devem existir simplesmente para serem belas e inspirar, iluminar e alegrar a vida das pessoas – e isso a danada da torre cumpre à perfeição. As intermináveis filas de visitantes estão lá pra comprovar.
Uma cidade grande, bela, organizada e limpa demais (pra não dizer que não senti cheiro de urina nas ruas, aconteceu em apenas um dia perto de uma estação de metrô mais à noite – longe da realidade do centro das nossas capitais). Um passeio que merece ser feito.
Mas…
Passado o deslumbramento de turista (coisa que só acontece depois de uns 5 dias), a gente começa a olhar a cidade mais friamente. A maior vantagem de ficar em algum lugar com calma é essa: olhar e ver. Conseguir enxergar o quotidiano do lugar e o comportamento das pessoas, e isso só acontece se você tiver tempo de tirar os olhos do visor da máquina fotográfica.
Paris tem seus problemas também: tem mendigo na rua (cada um com pelo menos dois cachorros à tira-colo), tem cocô de cachorro na calçada (e que não é do cachorro do mendigo), tem assalto no metrô, tem acidente de trânsito, tem golpista às margens do Sena (quem tem “TURISTA” escrito na testa tem que abrir o olho – uma mulher tentou me passar um golpe que, enquanto niteroiense que sempre andou com a rapaziada de Piratininga, do Ingá e da Saldanha Marinho, saquei de longe que era conversa fiada. Um casal de alemães mais à frente não teve a mesma sorte. Nessa hora a melhor coisa é um “Je ne parle pas français” ou um “No, thanks”), tem engarrafamento à qualquer hora do dia, tem preços exorbitantes (3,50 euros por uma Coca-Cola, uma garrafa d’água ou uma grenadine – groselha de rico), tem bêbado inconveniente no metrô, tem vendedor mal-educado… enfim, tem vários problemas bastante terceiro-mundistas. Nada que prejudique o seu passeio, desde que você esteja preparado para encontrar os seus percalços e saiba ser incisivo quando precisar sê-lo.
E aí alguém me perguntou: “Dureza foi voltar depois dum passeio desses, hein?”
E eu respondo na lata: dureza foi ficar lá e sentir tanta falta do meu país. Dureza foi ficar lá e cair a ficha de não entender porque se fala tão mal do Brasil, porque o país é tão criticado, porque nossa economia é tão explorada e vulnerável à especulação… enfim, entender porque o Brasil não tem consciência da maravilha que é e (não tem como fugir do clichê) do potencial que o Brasil tem. Não vi sequer a cara do Lula em qualquer noticiário que fosse, mas tenho certeza que uma manchete sobre tiroteio, enchente ou qualquer desgraça teria destaque tranqüilamente (é só assistir um pouquinho de CNN).
O brasileiro é um povo que sabe viver a vida, mesmo apesar de todos os pesares. Bonito foi ouvir isso de gente lá de fora. E o Brasil não tem problemas diferentes do Primeiro Mundo. Infelizmente o que acontece aqui é que se perdeu o controle sobre o que está errado. Mas ainda assim vejo com otimismo todos os movimentos em prol da cidadania, da sustentabilidade e da ética, bem como reconheço os esforços do poder público em retomar as rédeas da situação – social, econômica e administrativamente. Eu acredito que esse país tem jeito.
A França ganhou o meu respeito e a minha admiração. Por ser um país que tem uma política internacional diplomática e não-extremista, mas principalmente por ser tão sincera com ela mesma quando o assunto são seus problemas internos.
Vive La France.
AME O BRASIL.










*Mera curiosidade – estatística sobre as camisas de futebol do Brasil observadas:
01 Botafogo (claro)
01 Atlético – MG
01 Atlético – PR
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É, meu caro, basta passar um tempinho fora do Brasil pra se chegar a seguinte constatação: o nosso país, apesar de todos os problemas, ainda é um lugar cheio de coisas e pessoas belas. O nosso jeito, a nossa forma de lidar com as situações, o nosso modo de ver, torcer, brigar, chorar, rir e, acima de tudo, ser e viver inspira gente de todos os cantos – como os franceses em geral, por exemplo – e representa a alma da nossa nação. Definitivamente, não há preço que pague a sensação de ESTAR EM CASA! Viva a França, viva o Brasil e viva o amor à vida! Grande abraço.
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Taí um cara que sabe o que está falando.
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Enquanto arquiteto-e-urbanista de renome para três ou quatro gatos pingados, devo dizer que o Velho Continente é uma verdadeira aula DINÂMICA de História, Artes e Cidadania.
As grandes obras, os movimentos sociais mais importanteS, as grandes idéias e os grandes pensadores, em sua maioria esmagadora são advindos dele.
Sorte daqueles que tiveram essa oportunidade de conhecer parte desse mundo.
Quando nosso intrépido veterinário-e-dublê-de-servidor-público-federal me disse que iria para essa viagem, uma das coisas que disse à ele, era para que, se possível, ele fugisse dos lugares-comuns e percorresse a cidade.
E pelas breves conversas e pelas fotos, vi que ele fez isso, influenciado ou não pelo que eu disse.
Fico feliz que ele tenha observado a cidade em suas minúcias, no dia-a-dia e que a tenha visto, fora do visor da câmera digital. Só assim, percebemos que Paris ou Londres ou Nova York ou Rio ou São Paulo ou Buenos Aires são, na verdade “farinhas do mesmo saco”. metrópoles são metrópoles em qualquer parte do mundo e, com a propriedade que lhe é peculiar, Gaburah colocou muito bem: “a diferença é que eles sabem ter controle dos seus problemas”.
Como diria nosse corintiano-dublê-de-presidente, “nunca antes na história deste país” fomos tão bem vistos no mundo afora. Cada vez mais, temos mais visibilidade. Cabe a nós, cidadãos, cada um fazendo sua parte, de verdade e sem “blá-blá-gol”, tornar idéias, ações. Insatisfação, protesto. Crime, castigo.
Na época da ditadura militar, havia um cartoon do Ziraldo que dizia: “Brasil. Ame-o ou deixe-o!”.
Como somos chatos pra caralho e não desistimos nunca, vamos amá-lo!
Abraços por trás.
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Claro que foi influenciado, meu caro Xerox. Aliás, uma das lições da viagem foi sempre tentar buscar todos os ângulos da cidade com olhar de arquiteto, pois os pequenos detalhes muitas vezes enchem os olhos.
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